14/12/2018
14 anos de Portale Romanista

A Roma jogou hoje (12/12), mas não assisti. Não assisti a nenhuma de suas 15 partidas neste campeonato italiano, tampouco às 6 disputadas pela Liga dos Campeões. Não me esforcei muito. Me considero, se não curado, ao menos anestesiado em relação ao romanismo. Infelizmente, chegaram os problemas maiores da vida, e eles dificultam acompanhar uma equipe em fuso-horário diferente do meu ao longo da semana, exceto em caso de alta prioridade. E este não é mais o caso.

Ainda assim, acesso religiosamente o Corriere dello Sport e pelo menos mais um site dedicado à Roma. Todo dia, sem exceção. Às vezes sequer abro qualquer link, mas verifico o que supostamente está acontecendo, como um guarda desarmado que vigia seu posto a distância.

Mas a Roma já foi meu cotidiano. O Portale Romanista brasileiro, fundado há quatorze anos, viveu seu ápice entre 2005 e 2008 – ao menos por aqui. Àquela época, torcedores brasileiros se dividiam entre o fórum e o Orkut. As discussões no PR costumavam ser muito mais ricas, e os personagens, mais marcados. Como em qualquer círculo social, havia todo um ambiente de educação e constrangimento. E doidões.

Sob o lema “Uma fé que nunca tem fim”, traduzido da contraparte italiana, conheci gente do Brasil inteiro. Fui hospedado em diferentes estados; hospedei diferentes malucos. Amarrei todo um grupo em Curitiba que parecia predestinado a se conhecer. (Quem me conhece há mais de uma semana já cansou de ouvir essa história – ela pode ser lida em maiores detalhes aqui.)

De todo modo, tudo começou no PR. Lembro da primeira vez em que o utilizei. Àquela época, eu e meus pais morávamos provisoriamente no apartamento de minha avó enquanto nosso apartamento, já comprado, não era liberado. Tinha 13 anos. Me cadastrei com o apelido MLR13. Não por conta da idade, mas por ter nascido no dia 13 – o que não impediu de atualizarem meu apelido conforme eu envelhecia (MLR14, 15, 16…) sem eu ter condições de impedi-lo.

Eu não dispunha de internet em casa e estava no apartamento de minha tia. O computador – dela – ficava sob uma mesa de madeira clara. Era 2005, época de pré-temporada. Criei um tópico – estúpido e sem nexo – sobre possíveis reforços. Sugeri Juninho Pernambucano e Iaquinta, alheio a qualquer base na realidade. (A Roma, penalizada, acabaria proibida de contratar jogadores.)

Para sorte minha, “Lupulus” morava na mesma cidade que eu. Lupulus era o nome do usuário Antônio Carlos Zamarian, moderador do Portale Romanista brasileiro. Lupulus se torna Zama para aqueles que o conhecem, e em questão de um ano ele já me tratava como uma espécie de sobrinho irritante por quem se reserva um inegável carinho. Na verdade, mesmo eu sendo um adolescente e (portanto) idiota, ele nunca me subestimou, nivelando sempre suas conversas, independentemente do interlocutor.

Por meio dele, conheci – primeiramente – alguns romanistas de São Paulo. A eles todo, apresentei Gabriel, grande amigo de infância. A partir disso, o PR deixou de ser um ambiente entre usuários digitais para ser um ambiente digital entre conhecidos. Nós conversávamos, sabíamos da vida do outro. Nos importávamos. A Roma era um canalizador. Na primeira vez em que quatro desses paulistas vieram para cá, me presentearam com um livro de discursos do Martin Luther King. Eles também enxergaram que eu poderia eventualmente superar minha condição de adolescente e, portanto, idiota.

Essas relações se estreitaram. Guardo amigos dessa época até hoje. Mais importante do que isso, guardo contatos de confiança, isto é, pessoas com quem sequer necessariamente converso, mas cujos diálogos, mesmo quando infrequentes, não soam como um contato forçado entre colegas distantes, e sim naturais, espontâneos, com o senso de humor inerente à intimidade. Aqueles que conviveram no Portale Romanista se conhecem muito bem; é como um ensino médio de internação voluntária. Hoje o sujeito é gerente de uma empresa séria, mas você sabe que dez anos atrás ele chorava com um vídeo de gols do Taddei.

Àquela época, discutíamos todos os jogos. Todas as possíveis contratações. Hábitos culturais. Temas importantes, trivialidades. Havia um conjunto de regras impensável para os padrões atuais — como por exemplo a restrição seríssima a não falar sobre clubes brasileiros. Isso gerava todo um estresse para os moderadores; estresse hoje reconhecido por Zamarian como uma grande perda de tempo (a paternidade o afrouxou). Aquele código de conduta era chato e, talvez, desnecessário, mas certamente ajudou a fortificar os alicerces de uma cultura localizada. Chegamos ao ponto de criar o Roma Club Brasil, por si só todo um passo em falso na tentativa de institucionalizar o espontâneo.

[Alguns momentos memoráveis: quando o Flamengo foi eliminado pelo Cabañas, e boa parte do fórum, de saco cheio do mengocentrismo de alguns romanistas, decidiu chutar o balde com provocações rasteiras. Naquele dia, meio Portale foi suspenso. Também houve a votação entre Florianópolis e Rio de Janeiro para decidir a sede do encontro nacional de 2008, com campanha e tudo. Outra situação curiosa: quando o usuário “Pyroca_marvado”, participante frequente, cotididano, confessou, depois de meses ou anos, ser na verdade um torcedor da Juventus que acabou se apegando ao pessoal. Ninguém desconfiou de Pyroca_marvado. Sempre valia observar os bate-bocas entre os usuários “brasileiro” e “Euronymous” devido à falta de respeito com que o segundo, um mengocêntrico ao mesmo tempo bem humorado, ácido, criativo e insuportável, tratava os atletas e a instituição. Lembro-me bem de duas ofensas específicas: ao goleiro Curci, cujo desempenho “seria pior do que um cabo de vassoura preso ao travessão balançando com o vento”, e do lateral Rosi, que deveria “imediatamente abandonar o futebol e vender medalhinhas do Papa”.]

Era outra internet. Não necessariamente melhor ou pior – a questão é que havia certa ingenuidade em relação ao modo de se apresentar e de se comportar. Com a guarda baixa, nós – usuários do PR – nos conhecíamos melhor do que várias das pessoas que convivem conosco diariamente. Hoje é normal que cidadãos exponham  verdadeiras personas, agindo como se movidos por um departamento individual de relações públicas. Doze anos atrás, você conseguia simplesmente ser Pyroca_marvado.

De todo modo, os indivíduos construíam aquele ambiente. Assim como, digamos, você não detesta “a faculdade”, e sim certos professores e/ou colegas desagradáveis; assim como você não adora “o trabalho”, e sim colegas agradáveis etc., o fato é que sua relação com qualquer instituição – séria ou delirante – depende das pessoas com quem se interage nela. É uma questão de converter o abstrato em concreto.

Não há como reduzir a importância de Zamarian na consolidação desse núcleo. Era ele quem organizava. Encontro; tradução; confecção de camiseta; bolão: tudo. Para se ter ideia da organização, não só havia um bolão da Serie A – com 20 participantes – como havia uma divisão de acesso, a qual formava um bolão da Serie B italiana. Na Coppa, participantes de ambos se encontravam. Eu ganhei o bolão da Serie B e tenho até hoje um troféu, este confeccionado pelo sogro do Zamarian. O troféu replica em madeira seu correspondente real da Serie B. Todo encontro nacional tinha uma camiseta própria, confeccionada em algodão e estampa silk de alto nível.

Portanto, como nas guerras púnicas, Zama merece um capítulo à parte. Qualquer pessoa que converse com Zamarian por 10 minutos tem a completa consciência de que interage com um maluco. Qualquer pessoa que o ouça por um pouco mais que isso se dá conta de testemunhar um caso raro de indivíduo com índices simultâneos de inteligência e paixão dementalizadora.

Certa vez, eu estava em uma lanchonete do centro da cidade. Comia um shawarma. Da mesa de plástico, avistei um sujeito se dirigindo ao caixa com a discrição de um diabo-da-tasmânia. Vestia uma bandana e perguntava se a lanchonete teria um carregador de iPhone para emprestar (?). Quando vi que vestia uma camisa da Roma com nome e número de Christian Panucci, não tive dúvidas: aquele alinhamento de excentricidades só poderia ser emanado por Zamarian. (Em outra oportunidade, encontrei-o na Vila Capanema. Atlético e Palmeiras, Copa do Brasil 2013. O deslocado usava uma camisa do Totti.) Estamos falando de um sujeito que viaja ouvindo cantos de pássaros. Ciclista, apegado à sua origem armena, entusiasta de cinema, skate elétrico e drones. Um cara que ama a Itália e o Paraguai, e conhece cada canto de Curitiba. Um senhor que serviu ao exército e não consegue parar quieto, ou falar baixo, ou permanecer sentado. Alguém, enfim, que passa pela vida com a notável qualidade de reconhecer beleza em suas mais variadas formas. Se Zama atribuir a si mesmo uma tarefa, ela será uma obsessão sem chances de abandono. Nesses momentos, não há como dizer não a ele – tentá-lo é perda de tempo. A quantidade de material histórico traduzida por Zamarian – movido por livre e espontânea vontade, zero chance de monetização – impressionaria qualquer comunidade de fãs de franquias infanto-juvenis.

Há extraordinárias histórias de quando visitamos outros romanistas e de quando recebemos visitas. Um dos encontros envolveu perseguição de carro de madrugada; outro, certo comentarista televisivo enchendo o bucho de comida e de álcool e saindo sem pagar. Foram vários os encontros, que com o tempo abandonaram sua condição de encontro romanista para se consolidar simplesmente como reunião entre amigos. Hoje é normal interagirmos sem nem lembrar da Roma. Há dois meses, por exemplo, fui a São Paulo e encontrei três romanistas, todos antigos usuário do PR. Comigo estava Chequim, outro romanista. Comemos, bebemos e, enfim, a Roma certamente não entrou em pauta por dez minutos. Pergunte a qualquer participante de qualquer encontro e ele lhe relatará eventos inusitados.

Essa é, afinal, a fé que nunca tem fim. Que existam torcedores da Roma no Brasil é (ou era) um fato atípico; que eles tenham se estruturado com certo pioneirismo – hoje deve existir até comunidade de torcedores latinos da Albinoleffe – é uma ocorrência feliz. Mas que tantos entre nós tenham criado laços reais de amizade... este é, de longe, o verdadeiro milagre. O Portale Romanista nunca voltará a ser o que já foi. Não existem condições socioculturais para isso. Não tem problema: vivemos o que vivemos na hora certa e ainda nadamos em seus corolários.  Talvez seja a hora de definir um aperto de mão secreto ou uma língua codificada, ou então confeccionar um chapéu de adoração ao Totti. Enquanto isso não acontece, permanecemos reservados em nossas memórias, cientes de que algo muito estranho aconteceu — um fenômeno espacial de difícil explicação, mas inegavelmente belo. Obrigado a todos que participaram. De minha parte, asseguro que me lembro bem.

Portaland | Visualizações: 590 | MLR13
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Estou aqui rindo pelos avessos (e nesse momento lendo um comentário do euronymous no grupo do PR WhatsApp, tentando gerar a mesma polêmica de sempre). Reconheço que ser romanista é algo que desestabilizou a noção autocrítica da minha conduta, mas convenhamos o melhor presente talvez não tenha sido os poucos e sucateados títulos que a Roma proporcionou, mas a amizade ao longo desse caminho que fizeram valer a pena. Se abrasileirar também é isso, poder ver que o Brasil é maravilhoso quando se cruza a fronteira dos preconceitos e se entrega a vasta cultura que o país tem por conta de um fator estrangeiro é muito mágico. Faz sentido, conheci muitas pessoas e verdadeiramente não posso jamais negar que não valeu a pena. Uma situação que não me foge jamais do pensamento é um trecho da carta escrita pelo finado presidente Franco Sensi, em ocasião dos oitenta anos da Roma: "No futebol não conta se vence ou se perde, é importante estar ali. O segredo está nesse sentimento, no compartilhamento de uma alegria ou de uma dor, no ser igual ao diferente e nessa muito particular situação que nos faz iguais e amigos". Esse emaranhado de particulares situações vividas expressamente de norte a sul do país (sem exceção) não apenas no fórum do Portale Romanista, mas hoje em dia até mesmo no WhatsApp, faz com que se reconheça que nem tudo foi uma loucura, mas um processo natural que fez valer a pena por conta de tudo que vivemos até aqui. Agradeço mais uma vez ao Mateus, com quem pude viver recentemente outra emoção bastante particular fora do mundo romanista e a quem agradeço a Deus ter conhecido.
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Grande abraço amigos! mesmo não os vendo com freqüência tenho muito carinho por vocês! Abração.
Mourexes
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