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Há 35 anos, a ilusão virou título

Teste

Falcão faz o gol da classificação aos 88': a vitória sobre o Colônia como punto di riferimento daquele time foi apontada pelo próprio Bruno Conti

 

Pouco mais de seis meses depois, a ressaca de 28 de maio de 2017 não terminou. Os olhos ainda reclamam por não ver um homem de proporções semidivinas em campo com a camisa 10 da Roma, os nervos demandam alguém para tomar a responsabilidade quando o time mais precisa e o coração sente um misto de dor, gratidão e saudade quando ele aparece nas tribunas. A verdade, no entanto, é que o time do mister Di Francesco está fazendo um grande trabalho na árdua missão de seguir em frente para moldar o caminho do clube no pós-Totti. Mas esse não é o foco deste espaço. Aqui, sem periodicidade definida, relembramos situações e recortes históricos do clube nestes 90 anos de existência. Talvez isso ajude a entender os caminhos majoritariamente melancólicos que foram construídos e os – esperançosamente vitoriosos – que ainda estão sendo. Sabemos, afinal, que a Roma sempre foi um reflexo doentio de seus torcedores e nós dela: ambos nunca aprendemos, mas (ou exatamente por isso) continuamos acreditando.

 

Algumas vezes, entretanto, valeu a pena. Ao invés de levar os romanistas à beira da insanidade pela frustração, como é mais comum, a Roma o fez pelo júbilo na conquista do segundo scudetto, ao fim da temporada 1982/83. Terceira colocada no campeonato anterior, a equipe começou bem aquela campanha, mas ainda não se mostrava consistente para pensar em títulos. Após assumir a liderança isolada na 8ª rodada, foram dois empates em três jogos, contra a Udinese e o lanterna Catanzaro, o que quase custa aos giallorossi o comando da Serie A. No mesmo período, a Roma perdeu por 1 a 0 para o Colônia, pela Copa da UEFA. O momento era de instabilidade e o time precisava virar a página. E virou, literalmente.

 

No calendário do ano de 1982 que certamente ficava no escritório do técnico Nils Liedholm – e se não ficava, agora eu arrumei a narrativa; de nada –, a página do mês de novembro já podia ser arrancada, e foi. Chegava o mês de dezembro, há exatos 35 anos, e com ele o salto de confiança e as demonstrações de força que a Roma precisava para voltar a ser campeã. E já começou logo na primeira partida, o jogo de volta contra o Colônia, que contava com o goleiro Schumacher e os atacantes Littbarski e Fischer – todos titulares e fundamentais para a Alemanha Ocidental que meses antes havia sido vice-campeã mundial. O jogo não foi fácil, mas o triunfo veio. 2 a 0 em uma tarde de muita chuva na capital italiana e com 70 mil testemunhas no Olimpico. Após quase entregar a classificação de forma característica por duas vezes (contra Ipswich Town e Norrköping) nas fases anteriores, a Roma se vestiu de time grande. Quatro dias depois, bateu a Inter por 2 a 1 pela Serie A e não deixou mais ninguém sequer encostar na classificação.

 

A empolgação foi tanta que o povo aurirrubro não podia deixar de se iludir – na verdade podia, claro, mas o delírio é um sintoma inevitável do romanismo. Não conheço exemplo mais claro e depressivamente hilário para os padrões atuais do que este trecho de uma crônica da partida contra o Colônia, publicada em 9 de dezembro de 1982 no “Giallorossi”, um jornal capitolino sobre a Roma (sim, eles já existiam):

 

“Ormai in Europa il nome Roma è diventato popolare quanto quello della Juventus o dell'Inter; e tutto questo non è affatto poca cosa se si pensa che fino a qualche anno fa la squadra della Capitale era la 'Rometta' conosciuta da pochi intimi. I successi ottenuti a spese di squadroni come Ipswich e Colonia dicono chiaramente che la Roma è una grande forza, una grande forza europea”.

 

Em tradução minha:

 

“Agora na Europa o nome da Roma se tornou tão popular quando o da Juventus ou da Inter, e isso não é pouca coisa ao considerar que há alguns anos o time da capital era a 'Rometta' que poucos fanáticos conheciam. Os triunfos conquistados sobre esquadrões como Ipswich e Colônia deixam claro que a Roma é uma grande força, uma grande força europeia”.

 

Ao fim daquela temporada, a Roma ficou pelo caminho nas quartas-de-final da Copa da UEFA e da Coppa Italia, mas conquistou o objetivo maior e foi campeã italiana pela segunda vez. Aquele time tinha Tancredi, Di Bartolomei, Ancelotti, Conti, Falcão, Giannini e Pruzzo. No ano seguinte, chegaria a uma final de Copa dos Campeões. Ou seja, o “delírio” até que durou por um tempo. 35 anos depois, as expectativas são as mesmas. Neste dezembro, o time que perdeu Francesco Totti já foi líder de um grupo difícil na Liga dos Campeões e tem um jogo chave contra a Juventus pelo campeonato na antevéspera de Natal.

 

Talvez a Roma não tenha mudado nada nos últimos 35 anos e qualquer sucesso momentâneo seja mera ilusão. Pois tudo o que eu gostaria de escrever é que a torcida mudou e não se ilude mais. Mas não é verdade. Por trás da armadura criada por esse círculo vicioso da certeza de inutilidade que é torcer pela Roma, seguimos à espera de que o time nos leve coletivamente à insanidade pelo júbilo, como em 1982/83. Continuamos em nosso anseio indefinido (e possivelmente infrutífero) de que o “delírio” passe a ser a regra em vez da exceção. Enquanto isso, embora nem sempre com coragem para admitir, nos alimentamos de ilusões e a Roma é o restaurante que nos converteu em fiel clientela. Garçom, pode mandar a próxima.

Categoria: História | Visualizações: 105 | Adicionado por : gioguerreiro | Tags: 1983, roma, scudetto, torcida | Ranking: 5.0/2
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excelente matéria Guerreiro, voce cada vez me surpreendendo mais com belos trabalhos e que bom que estou por perto para poder apreciar isso em especial nesse dia tão festejado pelos romanistas do Brasil
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